Artigo Científico

Abordagem Terapêutica da Leishmaniose Visceral Canina no Brasil: Protocolo com Miltefosina e Alopurinol

Por Equipe VetRank • Publicado em 31/05/2026
Revisão dos protocolos clínicos de manejo da leishmaniose visceral canina no Brasil baseados nas portarias governamentais e evidências farmacológicas.

A Complexidade da Leishmaniose Visceral Canina (LVC)

A leishmaniose visceral canina, provocada pelo protozoário Leishmania infantum e transmitida pelo flebotomíneo Lutzomyia longipalpis, representa um sério desafio de saúde pública em áreas endêmicas no Brasil. Devido ao caráter de reservatório doméstico do cão, a abordagem clínica exige um protocolo terapêutico rigoroso e responsável (Solano-Gallego et al., 2011).

Terapia Autorizada no Brasil: Miltefosina

O único tratamento leishmanicida de uso veterinário regulamentado e aprovado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e pelo Ministério da Saúde no Brasil é a Miltefosina na dose de 2 mg/kg via oral, a cada 24 horas, durante 28 dias consecutivos. A ação deste fármaco promove a redução da carga parasitária nas células do hospedeiro, aliviando os sinais clínicos e diminuindo expressivamente a infectividade do cão frente ao vetor (Nogueira et al., 2019).

O Papel do Alopurinol no Manejo Crônico

O Alopurinol (10 mg/kg via oral, a cada 12 horas) é associado à Miltefosina para atuar como leishmaniostático de longa duração, interferindo diretamente na síntese de purinas do parasita e bloqueando sua multiplicação celular. O uso crônico do Alopurinol determina controle veterinário periódico com exames de urinálise e ultrassonografia para evitar a ocorrência de xantinúria e nefrolitíase.

Pegadinhas Comuns em Provas (ENARE / Concursos)

  • Cura Clínica vs. Cura Parasitológica: O protocolo terapêutico em cães visa à redução da carga parasitária e à resolução clínica, mas não promove a cura esterilizante (cura parasitológica completa). O animal tratado permanece como portador.
  • Uso de Repelentes: O tratamento clínico deve obrigatoriamente vir acompanhado do uso de coleiras repelentes impregnadas com Deltametrina a 4% (ou correlatos). Tratar o cão sem protegê-lo contra picadas é ineficaz e perigoso epidemiologicamente.
  • Restrições de Medicamentos Humanos: Medicamentos leishmanicidas destinados ao tratamento humano (como o antimoniato de meglumina e anfotericina B) são proibidos para o uso em animais pelo risco de indução de resistência a drogas de eleição em humanos.

Tabela de Dosagem e Ações Terapêuticas

Princípio AtivoProtocolo de DoseFrequência / DuraçãoFunção e Ação
Miltefosina2 mg/kgSID por 28 diasAção leishmanicida direta (reduz carga parasitária)
Alopurinol10 mg/kgBID (Uso contínuo sob avaliação)Ação leishmaniostática (bloqueia replicação do vetor)
Deltametrina (Coleira)N/ATroca a cada 4-6 mesesRepelência e controle do vetor (Lutzomyia longipalpis)

Referências Bibliográficas

Nogueira, F. S., Avanci, S. V., & de Souza, A. I. (2019). Use of miltefosine to treat canine visceral leishmaniasis caused by Leishmania infantum in Brazil. Parasites & Vectors, 12(1), 130. https://doi.org/10.1186/s13071-019-3382-5 (PMID: 30878150)

Solano-Gallego, L., Miró, G., Koutinas, A., Cardoso, L., Pennisi, M. G., Ferrer, L., ... & Baneth, G. (2011). LeishVet guidelines for the practical management of canine leishmaniosis. Parasites & Vectors, 4(1), 86. https://doi.org/10.1186/1756-3305-4-86 (PMID: 21599900)